Pular para o conteúdo principal

South Park - Especial da Pandemia (2020)


South Park é uma das séries mais irreverentes da história da televisão. Há 23 anos no ar, e após várias polêmicas, a série de Trey Parker e Matt Stone conseguiu sobreviver mantendo seu humor crítico e corrosivo (quase que) intacto. O reflexo disso é o recém-lançado Especial da Pandemia, uma sátira do ano de 2020 e da pandemia de Covid-19.

O episódio especial dá continuidade aos eventos da temporada anterior (23ª). Randy vive com sua família em uma fazenda e trabalha na produção de maconha, até que a Covid-19 chega em South Park. As aulas passam a ser online, as pessoas passam a usar "fraldas de queixo" - nada mais nada menos do que a máscara colocada de maneira incorreta - e os negócios são extremamente afetados. Cartman está feliz, pois não precisa frequentar a escola e pode passar o dia inteiro folgando e dormindo. Sua paz é perturbada quando as famílias são notificadas do retorno às aulas presenciais, com um corpo docente emergencial. Uns apoiam, outros vão contra, mas todos lidam com as consequências da pandemia. Enquanto isso acontece, Randy distribui um Especial da Pandemia, só que esconde um segredo que pode ser a chave para a cura da Covid-19.

Sempre atentos à realidade, Parker e Stone fazem uma análise crítica do impacto não só da pandemia mas também da quarentena, mais visível no arco de Butters e Stan, que buscam sua vida como era antes. Cartman, apesar do incrível número musical de abertura, acaba ficando em segundo plano, assim como as demais crianças. Em paralelo, temos como protagonista adulto Randy, que tem o arco de personagem mais insano e engraçado de todos. Seus momentos com Mickey Mouse... são a essência do humor de South Park. A história aborda também temas como racismo e violência policial, traçando um paralelo com casos como o de George Floyd e o movimento Black Lives Matter. A crítica maior, entretanto, é ao governo americano, representado pelo presidente Garrison (que nas últimas temporadas virou uma sátira de Donald Trump). Seu tempo em tela é pequeno, mas sua presença na narrativa é fundamental, especialmente na cena final - uma representação tragicômica e altamente aterradora do mundo real.


Quando o humor é usado como ferramenta de denúncia. (Crédito: Divulgação - Comedy Central)


Manter uma série no ar por tanto tempo nem sempre é algo que funciona. Os Simpsons é o melhor exemplo disso - uma grande série que, mesmo se mantendo boa, viu sua fórmula ser gradativamente esgotada. Não acompanhei as últimas temporadas de South Park (a última que assisti na íntegra foi a 20ª), ainda assim, mesmo com um certo desgaste de sua fórmula, é uma série que mantém um alto nível de qualidade, tanto no humor quanto nas críticas sociais e políticas. E o Especial de Pandemia reflete muito isso: sem surpresas ou inovações, novamente Parker e Stone entregam uma representação que acerta o tom entre a comédia e a tragédia, nunca se distanciando da realidade.


Nota: 8 / 10


Letterboxd:

lucasnoronha99 (https://bit.ly/3dbE2p5)

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Ensaios Cinematográficos - Direção de Fotografia #1

Direção de fotografia é uma das áreas mais importantes do processo audiovisual, e uma das mais difíceis também, especialmente por lidar direto com tecnologia. Os ensaios a seguir escrevi para um curso que fiz na Academia Internacional de Cinema (AIC) relativo à essa área. São textos mais técnicos e, evidentemente, recheados de spoilers . 01) Dark (2017-2020)  (Crédito: Divulgação - Netflix) Tendo como um dos pilares o efeito de déjà-vu, a fotografia (especialmente a decupagem) reforça essa sensação, trazendo planos semelhantes, como exemplo as mortes de Martha e Jonas. Mas o que mais me chamou a atenção foi a utilização dos planos aéreos da floresta, que serve como transição entre situações, tempos e mundos diferentes. Cada plano é único, e é interessante notar como as sequências no passado têm tons mais quentes (variações de bege e tons avermelhados) e as do futuro tons mais frios (especialmente azulados). Com certeza houve um reforço no processo de colorização, mas acredito que d...

Vomit Gore Trilogy (2006-2010) e o "horror" de Lucifer Valentine

Lucifer Valentine é um dos diretores mais controversos de todos os tempos. Relativamente famoso no meio underground, basta ler o seu nome para se ter uma noção de quem ele é. Esse nome, Lucifer Valentine, é um pseudônimo - ele vive em anonimato enquanto produz sua "filmografia". Poucas informações são sabidas sobre ele - Valentine é satanista, fã do Kurt Cobain e pode ter tido uma relação incestuosa com sua irmã Cinderella, além de uma relação BDSM abusiva com sua atriz principal, Ameara Lavey. Tudo isso foi dito pelo próprio nas raras entrevistas que ele deu. Seu nome costuma ser associado ao de outros diretores extremos, tais quais Marian Dora (cujo nome também é um pseudônimo) e Fred Vogel. Ainda que diretores radicais, com obrais tais quais Melancholie der Engel (Dora) e a trilogia August Underground (Vogel), nenhum deles se compara com Lucifer Valentine. Um dos primeiros trabalhos de Valentine é um documentário de 2012, Black Metal Veins, que acompanha uma banda de black...

CineBR #1 - Tinta Bruta (2018)

Infelizmente ainda há muito preconceito e desconhecimento quanto ao nosso cinema. Somos um polo cinematográfico muito importante, e para além de filmes de comédia da Globo Filmes (não julgando, também são interessantes), há uma vasta variedade de títulos incríveis e que não devem nada a muitos filmes internacionais. Um desses é Tinta Bruta, dos diretores Filipe Matzembacher e Márcio Reolon, que circulou por vários festivais, incluindo o Festival de Berlim. Tinta Bruta (2018) O filme conta a história de Pedro, um jovem homossexual que está sob processo criminal e, com o codinome GarotoNeon, apresenta danças eróticas coberto de tinta na internet. Ele vive com sua irmã em Porto Alegre, e descobre que outro usuário está copiando seu estilo. As pessoas vêm e vão em sua vida, ao passo que ele vai se apresentando e passando por situações que o transformam. Tinta Bruta é provavelmente meu filme nacional preferido. Lembro de o ter assistido na Cinemateca Capitólio, em uma sessão com participaçã...