Pular para o conteúdo principal

Curtas-Metragens Indicados ao Oscar 2021

Quem nunca apostou em um bolão do Oscar? Seja um valor em dinheiro ou apenas pela brincadeira, é sempre algo divertido de se fazer - costuma-se apostar em categorias maiores, tal qual Filme, Ator, Atriz, Coadjuvantes, Roteiros etc. Antigamente havia as categorias de Mixagem e Edição de Som, cuja diferença era uma incógnita para alguns, mas são duas funções distintas e igualmente importantes. Infelizmente elas foram unificadas, em uma chamada apenas de Melhor Som. É um ótimo exemplo de categorias que sempre são deixadas em segundo plano; ainda assim, as mais subestimadas tipicamente são as de curta-metragem.

Curta-Metragem (Live-Action)

Documentário de Curta-Metragem

Curta-Metragem de Animação

O mercado de curtas-metragens é muito rico criativamente, e não deve nada ao dos longas. Há ainda uma ideia de que cineastas iniciam suas carreiras fazendo curtas (por questão de viabilidade), então migram para longas e permanecem por lá, quando na verdade é muito comum a produção de curtas após o primeiro longa-metragem. Um exemplo recente é What Did Jack Do?, de David Lynch. O tamanho reduzido pode ao mesmo tempo ser um desafio em nível de storytelling quanto pode ser uma vantagem - o argumento costuma ser mais simples, e requer um arco narrativo mais simples e compacto, o que facilita em certa medida para escrever o roteiro e tirar do papel. Mas, por outro lado, é preciso saber elaborar uma história objetiva (ou não) e que engaje o público-alvo, sem sobrecarregar o filme de informações e/ou personagens.

Os filmes indicados esse ano a essas categorias são bastante diversos, em nível narrativo e em nacionalidades.


(Crédito: Fotomontagem)

Curta-Metragem (Live-Action):

Two Distant Strangers aborda a violência policial e o racismo nos EUA e no mundo, usando a estrutura do Dia da Marmota (um personagem vive o mesmo dia repetidamente) de maneira muito original e crítica. É um filme especialmente tocante, por mostrar algo tão horrível e infelizmente tão atual. White Eye possui uma trama aparentemente simples - uma discussão envolvendo uma bicicleta - mas seu subtexto discute temas como imigração e tensões políticas entre israelenses e palestinos. Vale destacar que tecnicamente é um filme muito bem feito, com um plano sequência de encher os olhos. Vemos o mesmo em The Present, só que a abordagem é um pouco mais "lúdica", acompanhando a busca de uma família por uma geladeira nova. A geladeira funciona como representação dos embates sociopolíticos da região, e não à toa boa parte da história se passa na própria fronteira. Feeling Through é um pouco mais leve que os demais, e traz uma mensagem positiva de inclusão, sendo o primeiro filme com um ator surdo-cego em um papel principal. The Letter Room é talvez o menos impactante da lista. É uma comédia de humor ácido que se passa em uma prisão, e conta com Oscar Isaac como protagonista.

Palpite: Two Distant Strangers pode ganhar o prêmio. Sua temática é altamente relevante, e é trabalhada de uma maneira original e reflexiva, com um final que é um soco no estômago.


Documentário de Curta-Metragem:

A Love Song for Latasha fala sobre o assassinato de Latasha Harlins, uma garota de 15 anos, afro-americana, que foi morta a tiros em um supermercado. O filme aborda a situação de forma poética, contando com depoimentos de amigos e familiares e um poema dela, declamado por sua melhor amiga. A Concerto Is a Conversation acompanha a trajetória de Kris Bowers, compositor da trilha sonora de Green Book, e a importância de sua família para sua vida e sua arte. Do Not Split é um registro direto dos protestos em Hong Kong no ano de 2019 e começo de 2020, revelando os conflitos internos graves e a conturbada tensão política e econômica com a China. Colette segue outra direção, trazendo os horrores da Segunda Guerra Mundial, sob o ponto de vista de Colette Catherine, cujo irmão foi morto em um campo de concentração pouco antes do final da guerra. Hunger Ward é talvez o curta mais impactante indicado, mostrando a dura realidade do Yemen. Acompanhamos o dia-a-dia em um centro de alimentação de crianças famintas. Enquanto algumas conseguem se recuperar, outras acabam não resistindo...

Palpite: Em meio a vários títulos pesados, A Love Song for Latasha é o que se destaca mais. Consegue se manter um retrato duro da realidade sem perder o tom poético, pesando menos o ritmo e construindo uma reflexão que atinge o fundo da alma.


Curta-Metragem de Animação:

Uma das categorias mais diversificadas. Se Algo Acontecer... Te Amo mostra o processo de luto de uma família, cuja filha foi morta em um tiroteio escolar. As composições são lindas, com um jogo de sombras perfeito, que representa o interior dos personagens. Opera é um curta bem experimental que consiste em uma imagem fixa, que sobe e desce gradualmente, revelando uma espécie de "pirâmide social" e movimentos revolucionários proletários. Indo mais além com o experimentalismo, Genius Loci é um filme francês que... bem, é difícil definir uma sinopse. O traço e os movimentos da animação são incríveis, e o enredo é propositalmente caótico (num... bom sentido?). Toca é a indicação da Pixar, a história de um coelho tentando construir a toca ideal - certamente é o mais fofinho dos cinco! Por último, Yes-People é uma produção islandesa que mostra uma vizinhança na qual todos moradores somente falam a palavra "sim".

Palpite: Se Algo Acontecer... Te Amo pode ser o vencedor da noite. Com um enredo simples e emocionante, o que o destaca dos demais é a narrativa visual. Genius Loci é lindo visualmente, mas o roteiro fica um pouco aquém, então o curta da Netflix seria um ótimo palpite.


Nem sempre os filmes dessas categorias são de fácil acesso, mas nesse ano vários indicados estão disponíveis via streaming (saiba aonde assisti-los em https://bit.ly/3dqcJrs). E aí, vai considerar adicionar os curtas-metragens no bolão do Oscar esse ano?



Mais sobre a temporada de premiações: 

A Voz Suprema do Blues - https://bit.ly/3qX3Nir
Uma Noite em Miami - https://bit.ly/39FAT0n
O Som do Silêncio - https://bit.ly/3doviwb

Letterboxd:

lucasnoronha99 (https://bit.ly/3dbE2p5)




Comentários

  1. Uma canção para Latasha é um filme que traz uma discussão muito importante, gostei. Achei muito belo e impactante também a animação Ir anything happens I love you.
    Bons palpites! Obrigada pelas dicas!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Ensaios Cinematográficos - Direção de Fotografia #1

Direção de fotografia é uma das áreas mais importantes do processo audiovisual, e uma das mais difíceis também, especialmente por lidar direto com tecnologia. Os ensaios a seguir escrevi para um curso que fiz na Academia Internacional de Cinema (AIC) relativo à essa área. São textos mais técnicos e, evidentemente, recheados de spoilers . 01) Dark (2017-2020)  (Crédito: Divulgação - Netflix) Tendo como um dos pilares o efeito de déjà-vu, a fotografia (especialmente a decupagem) reforça essa sensação, trazendo planos semelhantes, como exemplo as mortes de Martha e Jonas. Mas o que mais me chamou a atenção foi a utilização dos planos aéreos da floresta, que serve como transição entre situações, tempos e mundos diferentes. Cada plano é único, e é interessante notar como as sequências no passado têm tons mais quentes (variações de bege e tons avermelhados) e as do futuro tons mais frios (especialmente azulados). Com certeza houve um reforço no processo de colorização, mas acredito que d...

Vomit Gore Trilogy (2006-2010) e o "horror" de Lucifer Valentine

Lucifer Valentine é um dos diretores mais controversos de todos os tempos. Relativamente famoso no meio underground, basta ler o seu nome para se ter uma noção de quem ele é. Esse nome, Lucifer Valentine, é um pseudônimo - ele vive em anonimato enquanto produz sua "filmografia". Poucas informações são sabidas sobre ele - Valentine é satanista, fã do Kurt Cobain e pode ter tido uma relação incestuosa com sua irmã Cinderella, além de uma relação BDSM abusiva com sua atriz principal, Ameara Lavey. Tudo isso foi dito pelo próprio nas raras entrevistas que ele deu. Seu nome costuma ser associado ao de outros diretores extremos, tais quais Marian Dora (cujo nome também é um pseudônimo) e Fred Vogel. Ainda que diretores radicais, com obrais tais quais Melancholie der Engel (Dora) e a trilogia August Underground (Vogel), nenhum deles se compara com Lucifer Valentine. Um dos primeiros trabalhos de Valentine é um documentário de 2012, Black Metal Veins, que acompanha uma banda de black...

CineBR #1 - Tinta Bruta (2018)

Infelizmente ainda há muito preconceito e desconhecimento quanto ao nosso cinema. Somos um polo cinematográfico muito importante, e para além de filmes de comédia da Globo Filmes (não julgando, também são interessantes), há uma vasta variedade de títulos incríveis e que não devem nada a muitos filmes internacionais. Um desses é Tinta Bruta, dos diretores Filipe Matzembacher e Márcio Reolon, que circulou por vários festivais, incluindo o Festival de Berlim. Tinta Bruta (2018) O filme conta a história de Pedro, um jovem homossexual que está sob processo criminal e, com o codinome GarotoNeon, apresenta danças eróticas coberto de tinta na internet. Ele vive com sua irmã em Porto Alegre, e descobre que outro usuário está copiando seu estilo. As pessoas vêm e vão em sua vida, ao passo que ele vai se apresentando e passando por situações que o transformam. Tinta Bruta é provavelmente meu filme nacional preferido. Lembro de o ter assistido na Cinemateca Capitólio, em uma sessão com participaçã...