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Além da Barreira das Legendas #6 - O Poço (2019)

Ainda dentro da temática "quarentena", há outro filme, disponível na Netflix, que dialoga diretamente com o momento que estamos passando. É um filme espanhol que vem dividindo opiniões entre os espectadores - uns odiaram, uns amaram, uns apenas não entenderam. Trata-se se O Poço, produção de 2019 dirigida por Galder Gaztelu-Urrutia. Um filme intrigante e perturbador com uma forte mensagem social, religiosa e filosófica.

O Poço (2019)


Goreng é um homem que, na tentativa de parar de fumar, voluntariamente participa de uma iniciativa social chamada O Poço, que consiste de uma "prisão" vertical com diversos andares, nos quais as pessoas são organizadas em duplas. Todo dia desce uma mesa cheia de comida, até o último andar, e a cada mês os participantes trocam de andar aleatoriamente. Cada um tem o direito de levar um objeto consigo - Goreng leva o livro de Dom Quixote. Ele acorda no andar 48, e lá conhece Trimagasi, um senhor excêntrico que trouxe consigo uma faca Samurai Plus. Os dois eventualmente viram amigos, e já no primeiro mês, Goreng entende como funciona o jogo.

(ALERTA SPOILERS)

O Poço é uma representação literal de uma pirâmide social. Como dito por Trimagasi, "há três tipos de pessoas, os de cima, os de baixo, e os que caem". A comida é calculada para que seja suficiente para todos ali, mas os de cima se esbaldam na comida, sobrando pouca ou nenhuma comida para os de baixo. Goreng aprende na prática quando, após um mês no andar 48, vai parar no andar 171, no qual nenhuma comida chega. Trimagasi o amarra e o amordaça na cama e, alguns dias sem se alimentar, começa a cortar pedaços do companheiro, quando é nocauteado por uma misteriosa mulher. Essa mulher desce todos os dias o Poço em busca de sua filha. Goreng, então, é obrigado a se alimentar de Trimagasi para não morrer de fome.

Se corrompendo pouco a pouco, ele passa por vários andares e situações, e conhece algumas pessoas, como Imoguiri, funcionária do programa que se voluntaria pois está com câncer terminal. Ela explica que há 200 andares ao todo, que menores de 16 anos são proibidos de se candidatar, e que a ideia do programa é ser um "centro de solidariedade voluntária". A esperança dura pouco quando, do andar 33, eles vão parar no 202, e ela se enforca com o lençol. Para sobreviver, ele se alimenta de sua carne também. Mais uma voz a ressoar em sua consciência.

Em seguida ele vai parar no andar 6, onde conhece Baharat, um homem religioso que busca incessantemente por ajuda nos andares superiores. Ele trouxe uma corda. Um casal oferece ajuda, mas é apenas uma demonstração de racismo, quando estes defecam em sua cabeça e o fazem perder sua corda e quase cair no fundo do Poço. Goreng então tem a ideia de iniciar um movimento quixotesco em busca da igualdade, descendo andar a andar com Baharat - seu Sancho Pança - e incentivando, voluntariamente ou à força, os detentos a pouparem comida.

Em meio a violência e desigualdade, a esperança de um mundo melhor. (Crédito: Divulgação - Netflix)

O Poço é um filme singular e reflexivo. Há uma crítica social evidente, em primeiro plano, mas esse não é um filme de uma camada só. Há fortes simbolismos religiosos (o andar 333, a concepção de um messias, um aspecto quase divino do andar 0) e até filosóficos, com questionamentos sobre moralidade e o quão longe somos capazes de ir para garantir nossa sobrevivência. De fato, canibalismo é uma realidade nos andares de baixo, onde as pessoas não têm acesso à comida e, para sobreviver, precisam se alimentar uns dos outros. O final foi muito criticado por alguns espectadores, mas na minha opinião é um final espetacular, e bastante desolador. Ao devorar Trimagasi e Imoguiri, eles passaram a habitar o interior de Goreng, e ao comer a panna cotta, a menina está com a mensagem em seu interior, então ela é a mensagem. Sua figura por si só traz um teor religioso muito forte, e representa a esperança - uma garota que habita o andar mais baixo e continua intacta, limpa, sem fome. É uma representação puramente utópica. E Goreng se sacrifica para que ela se mantenha assim e, mais ainda, alcance os andares de cima.

Mais que Goreng, todos personagens, mesmo os passageiros, têm uma função específica na narrativa e são memoráveis. Uma personagem que tem certo destaque é Miharu, a mulher que desde andar a andar em busca de sua filha. Fica em aberto se a garota no final é sua filha - provavelmente é apenas uma representação metafórica - mas sua jornada durante o filme é incrível. Na minha opinião, ela seria uma representação de uma nômade, alguém que busca justiça social mas que se perdeu no caminho. Talvez não haja uma filha de verdade, mas ela, junto a Trimagasi e especialmente Imoguiri, foram quem motivaram indiretamente Goreng a tomar inciativa e iniciar sua aventura em busca da igualdade.

Há os de cima, os de baixo e os que caem. (Crédito: Divulgação - Netflix)

Após tudo que disse, é perceptível como, tendo gostado ou não do filme, é um roteiro brilhantemente escrito. O Poço é um filme para poucos. Não é um filme que vá cair no gosto de pessoas que assistem somente Velozes e Furiosos, Transformers e Vingadores (não desmerecendo nenhum filme ou tipo de espectador, não estou falando de valor artístico). Além desse aspecto, a fotografia é muito bonita, os efeitos especiais são bastante realistas, e o tema musical - que se repente em momentos chave ou de tensão - é bastante marcante.

E, junto de O Hospedeiro, é um filme que considero essencial ser assistido no período que vivemos de quarentena. Muitas pessoas estão estocando comida mais que o necessário, dessa maneira desregulando a balança alimentar entre os andares e deixando os "de baixo" sem ter as condições mínimas para sobreviver. E evidente que, além disso, O Poço traduz em parte como estamos nos sentindo estando enclausurados em nossas casas e com as atividades reduzidas. É uma medida fundamental para a redução do surto, mas é inegável que ficar preso em um lugar, sem poder sair, traz efeitos colaterais a longo prazo, não somente para a economia, mas para a saúde mental também.

Por estar acostumado a assistir filmes mais fortes, a violência gráfica não me impactou tanto por si só, mas considerando a mensagem que permeia ela, é extremamente perturbadora. Me remeteu a Cubo, filme de 1997 que possui uma vibe semelhante, mas sem os aspectos sociais. Remeteu também a Parasita, justamente pelos questionamentos sociais (mesmo que dialogue mais com Expresso do Amanhã, mas por não ter assistido ainda não tenho propriedade para avaliar as semelhanças). Tudo isso somado com uma mensagem soco-no-estômago próxima, apesar da temática diferente, a Réquiem Para um Sonho.

Um filme para poucos, que requer ser visto mais de uma vez para ser compreendido completamente - ou não. Óbvio.

NOTA: 10 / 10

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