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Estou Pensando em Acabar com Tudo (2020)

Conheço pouco da filmografia do Charlie Kaufman. Assisti somente à Sinédoque, Nova York (minha primeira crítica aqui no blog) e Anomalisa, mas já digo seguramente que é um dos meus cineastas preferidos. Vamos falar então de seu novo filme, uma produção densa e reflexiva que fala, mais que tudo, sobre términos. Antes que tudo acabe, vamos falar sobre:


Estou Pensando em Acabar com Tudo (2020)



A história gira em torno de um casal. Eles se conheceram há 6 meses, e estão indo até a casa dos pais dele. É a primeira vez que Lucy (mais adiante comento a respeito do nome dela) vai lá, mas durante o trajeto de carro um pensamento vem à sua mente - ela pensa em acabar com tudo. Ir adiante na sinopse iria adentrar em território de spoilers, mas o filme de Kaufman está longe de ser apenas uma obra sobre término de relacionamento. Pelo contrário. A viagem toma ares melancólicos e oníricos, e o senso de realidade se distorce, trazendo simbolismos sobre a relação dos dois, ela mesma e até sobre a vida.

Estou Pensando em Acabar com Tudo é um filme bastante singular, difícil de digerir (e isso é ótimo) e com um roteiro brilhantemente escrito, que fala sobre mortalidade e... términos como um todo. A direção de fotografia é constantemente sombria e puxando para tons frios, particularmente a cor azul. O trabalho de iluminação e cor é perfeito nesse sentido, trazendo uma sensação de realismo que destoa do teor onírico das situações, o que diz muito sobre o casal de protagonistas, que vivem uma relação complicada e destoante. O elemento chave nesse sentido, entretanto, é a direção de arte, que é impecável.

Jessie Buckley está incrível como Lucy. Jesse Plemons é bastante contido como Jake, mas faz parte do personagem - aliás, aqui Plemons lembra muito Philip Seymour Hoffman fisicamente, que participou de Sinédoque, Nova York, filme com uma proposta levemente semelhante. David Thewlis e Toni Collette são os mais imersivos, especialmente Collette, que rouba a cena como a mãe de Jake. Não assisti ainda a Hereditário (uma das minhas dívidas como cinéfilo), mas fica evidente nesse filme que ela é uma grande atriz, talvez uma das melhores de sua geração. O elenco de apoio é muito bom também. A trilha sonora, mesmo com a predominância dos ruídos e do silêncio, é linda, com direito a um número de Okhlahoma!


Momentos de família. (Crédito: Divulgação - Netflix)


(A partir daqui haverá alguns spoilers)

Aliás, há diversas referências ao musical em Estou Pensando em Acabar com Tudo. Seja a citação direta nas conversas entre Lucy e Jake, ou cenas como a dança na escola abandonada, que refletem diretamente o Dream Ballet da peça de Rodgers e Hammerstein. A atmosfera onírica remete bastante à Mullholand Drive, e à filmografia de David Lynch como um todo, vide a cena do jantar semelhante a Eraserhead. Foi impossível não associar também a Melcancolia, do Lars von Trier; apesar de serem contextos completamente diferentes (ou não tanto), ambas obras constroem uma atmosfera bastante melancólica e "terminal".

Como dito antes, é um filme recheado de simbolismos. A ideia de subconsciente (representação clássica do porão), a constante mudança de nome da personagem (chamada também por Louisa, Lucia e Ames), as várias semelhanças entre eles, a estranha passagem de tempo dos personagens... são elementos que traduzem a confusão mental dos personagens, particularmente o casal de protagonistas. A interpretação mais evidente do filme é que um Jake no fim de vida é o protagonista da história, e a Lucy que acompanhamos é apenas uma ilusão de sua mente, mas vejo mais como uma grande analogia à passagem do tempo, sem um protagonista específico. Nossas lembranças de tudo que vivemos, as pessoas que foram especiais para nós, e a melancolia relativa ao fim da vida. Tudo tem um prazo de validade, não é mesmo?

(Fim dos spoilers)

Estou Pensando em Acabar com Tudo é um filme difícil, que requer ser assistido mais de uma vez. O ritmo pode se tornar pesado em alguns momentos (particularmente nos longos trajetos de carro), mas cada segundo, cada diálogo, se justifica, levando em direção a um final triste e melancólico, e ainda assim esperançoso. É o cinema como imersão, visando não necessariamente a compreensão total, e sim provocar sentimentos no espectador. Mais um (e um ótimo) exemplo do cinema como experiência.


Nota: 9,5 / 10

Comentários

  1. Achei um filme inquietante! Gostei da análise! Com certeza, é uma produção que dialoga com outras tantas produções culturais!

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