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Além da Barreira das Legendas #0 - Martyrs (2008)

Martys é um dos meus filmes preferidos, e meu roteiro preferido (irei explicar os motivos), então, por mais irônico que seja, é sempre um prazer para mim falar sobre o filme.


Para começar a falar de Martyrs, preciso falar sobre o movimento chamado New French Extremity. Foi um movimento especialmente predominante na passagem do século XX para o século XXI, e teve como principais expoentes filmes como Irreversível, A Invasora, Em Minha Pele, Alta Tensão, A Fronteira e Martyrs. A concepção do movimento era trazer uma sensação de perturbação ao espectador, trazendo cenas de violência extrema aliadas a um conteúdo transgressor e seco, às vezes niilista.

O longa traz perfeitamente essa abordagem. A história gira em torno das amigas Lucie e Anna. Lucie foi capturada quando pequena por uma seita e viveu em cativeiro por alguns anos, sofrendo constantes abusos e torturas. Um dia ela escapa, e vai parar em um orfanato. Ela é completamente antissocial e autodestrutiva, e tem como única amiga a garota Anna. O tempo passa, e Lucie encontra a família que supostamente a sequestrou, assassinando todos a sangue frio. Então, liga para Anna, para pedir ajuda para limpar a cena do crime. A partir daí não se pode dizer muito a respeito da história, mas há uma criatura que caça Lucie, e fica o questionamento - será tudo fruto da mente perturbada dela ou o monstro é real? O filme tem dois momentos. No primeiro momento toma ares de um suspense psicológico violento, e na metade ocorre um plot twist perfeitamente elaborado e completamente inimaginável, e o filme vira um torture porn intelectual, como sempre me refiro.

(ALERTA SPOILERS)

O monstro de Lucy era imaginário, e ela acaba cometendo suicídio, imaginando estar sendo morta pela criatura. Mas Anna descobre uma mulher acorrentada, igual ao monstro da cabeça da amiga, e revela-se que a seita é real, e alguns membros da seita surgem na casa, assassinando a mulher e capturando Anna. Então surge a personagem mais intrigante, chamada apenas de Madeimoselle, que é a líder do culto, e ela explica à Anna sua motivação: quando prestes a morrer, nós alcançamos um novo estado, que pode ser captado através do olhar. Mas para chegar a este estado é preciso passar por dores inimagináveis, atingir um estado de mártir. A dor é o principal ativador. Foram feitos testes e as mulheres adultas foram as que melhor responderam. Dessa forma, Madeimoselle e sua seita pretendem descobrir o que há após a morte.

Anna é presa em um porão e torturada física e psicologicamente. Diferente de um torture porn comum, não há violência gratuita, há algo muito pior. Anna apanha, é forçada a comer, humilhada em todos sentidos. Na prisão ela começa a enlouquecer, e visualiza Lucie, que a diz para se entregar. Então ela fica pronta para a etapa final. Em um momento completamente perturbador, Anna é levada a uma sala de cirurgia e tem sua pele inteira arrancada, e fica pendurada de forma semelhante a uma crucificação, exposta à luz. Ela então atinge o estado de mártir. Ao perceberem, Madeimoselle é alertada, e vai falar com Anna, curiosa para saber a resposta. O espectador não ouve sua resposta. Chega então o momento de finalmente revelar a todos o que há após a morte. Madeimoselle está se arrumando para descer e fazer o anúncio, quando puxa uma arma e comete suicídio. O filme acaba com o olhar macabro de Anna para o espectador. Ela está inerte, provavelmente morta, e corta para uma definição.

Vítima.

(Crédito: Divulgação - Canal +)

Gosto de enxergar Martyrs como um filme-experiência. Quando assisti já sabia do final, mas mesmo assim tive um impacto absurdo. Não pela violência gráfica, e sim pela genialidade do roteiro. Estava esperando mais um torture porn onde haveria toneladas de sangue jorrando pela tela e situações absurdas, e me deparei com... algo único. A maneira que somos conduzidos pelo diretor, as revelações, os questionamentos, o niilismo, tudo. A trilha é fantástica, as atuações também - com destaque para Morjana Alaoui, que faz Anna. Mas o que mais me encantou foi o roteiro. É um filme consideravelmente depressivo, diga-se de passagem, mas isso de forma alguma é uma barreira. A violência, apesar de muito brutal, em nenhum momento é gratuita. Tudo está lá por um propósito, e ao menos eu saí do filme perturbado e encantado ao mesmo tempo. Tanto que acabei revendo depois de um tempo, e captei detalhes que não havia captado. E saí novamente perturbado e encantado.

Sempre gosto de fazer um paralelo entre Martyrs e A Serbian Film, geralmente colocados como os filmes mais perturbadores já feitos. Tive o (des)prazer de assistir A Serbian Film, e tenho muitos argumentos para dizer o quão ruim é esse filme. Não somente pela violência absurda, a abordagem e o conteúdo vazio me incomodaram demais, de maneira que em alguns momentos nem consegui levar a sério. Há uma tentativa de crítica social, que está presente em apenas uma cena e depois desaparece. De resto é um show de horrores sem propósito, às vezes caindo no caricato - como a sequência final de vingança do protagonista, que utiliza seu membro avantajado para matar alguém. Havia muito potencial no projeto, mas o diretor se perdeu na violência, e nisso o filme perdeu o sentido.

Maryrs tomou o caminho contrário. É tão violento quanto A Serbian Film e consegue ser um filme consistente, intrigante e reflexivo a respeito de questões existencialistas e religiosas profundas. Por essas razões, Martyrs talvez seja meu roteiro preferido, entre todos filmes que já assisti. Não vou mentir que tomei como grande referência para meu curta-metragem Estrelas (disponível no Youtube xD).

É preciso ter estômago forte, mas recomendo a todos. Um grande filme.

NOTA: 10 / 10

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