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Revisitando Filmes #2: Oldboy (2003)

 "Ria e o mundo rirá com você. Chore e chorará sozinho."

(Alerta de spoilers)

Oldboy pode não ser um grande blockbuster de ação, pode não ter o maior orçamento do mundo, mas é um filme grandioso em sua estrutura e condução, e assim, um dos melhores dramas, suspenses e filmes de ação já feitos. Uma narrativa bastante shakesperiana envolvendo vingança, incesto e muita tortura (física e psicológica) que, até o atual momento, é um dos maiores representantes do cinema coreano no cenário mundial. Uma obra-prima, e uma aula de cinema.

(Crédito - Divulgação - Show East e Egg Films)

Novamente, este filme já foi coberto no quadro Além da Barreira das Legendas, então essa não é uma análise propriamente. Tecnicamente é um filme impecável, sem dúvidas. Fotografia certeira, uma trilha sonora icônica, dramática, daquelas que ficam conosco e que são boas de ouvir inclusive fora do contexto do filme (saudade de trilhas assim). Uma direção soberba de Park Chan-wook e uma atuação espetacular de Choi Min-sik, que honestamente, merece muito mais destaque e mérito do que recebeu. É um papel denso e, em particular no ato final, que requer uma entrega absurda, e Min-sik entrega isso e mais. O Lee Woo-jin de Yoo Ji-tae também merece uma nota; sua frieza sentimental e melancolia são brilhantemente representadas pelo ator, que traduz muito bem os traços traumáticos e psicopatas do personagem, não fazendo-o cair em um estereótipo, um personagem mal por ser mal unidimensional. Há um trabalho de humanidade no filme inteiro, e um certo tom de exagero absurdo e suspensão de descrença tradicional de filmes de quadrinhos de super-heróis (afinal, não deixa de ser um filme de ação também, e é baseado em um mangá).

Esse é o primeiro ponto. Oldboy é um filme difícil de ser categorizado, levantando um debate acerca das nuances dos gêneros cinematográficos. A obra de Chan-wook funciona muito bem como filme de ação (e olha que não gosto de filme de ação geralmente), trazendo a icônica cena sem cortes de luta no corredor, que foi reproduzida em inúmeros filmes. Funciona muito bem como drama, tendo uma narrativa dramática, pesada, por vezes teatralmente exagerada, e com um final que talvez seja o plot twist mais inesperado e inesquecível de todos os tempos - já entro no mérito do final. Funciona muito bem como suspense, nos envolvendo em um mistério e em uma investigação trágica incessante que nos prende na poltrona, ou seja aonde estivermos assistindo.

Mas elogiar Oldboy é fácil. O recorte proposto gira em torno do processo de reassistir, especialmente a experiência de assistir ao filme sabendo do final. E que final. O interessante é a construção, sem a construção magistral não seria tão impactante. É um desfecho semelhante ao de Clube da Luta, que estava o tempo todo na nossa frente, através de pequenos detalhes, mas camuflados muito bem para que as fichas caiam e tudo faça sentido. Um senso de familiaridade visual e temática, assim com o a relação de Oh Dae-su e Mi-do. Reassistindo, cenas clássicas como a icônica cena da língua perdem um pouco da surpresa, mas não do impacto, assim como a revelação familiar.

Falando na cena da língua, certamente é um dos melhores exemplos de como trazer brutalidade sem mostrar nenhuma violência em si diretamente. É um trabalho minucioso de direção, fotografia, atuação e design de som - e trilha sonora, que trilha - que auxilia demais a criar uma sensação de desconforto. Comparando com a cena de Ichi The Killer em que acontece o mesmo, sem sombras de dúvida aqui a situação se torna extremamente mais desconcertante e dramática, e dolorosa. A humilhação de Dae-su nada mais é que uma tragédia grega clássica repaginada brilhantemente.

Inclusive, a jornada de Dae-su, entre momentos quadrinescos (vamos combinar, lutar contra uma centena de pessoas com uma faca nas costas daquela maneira não é tão realista assim) e trágicos certamente é o destaque, mas Mi-do não fica para trás. Ela não é tão explorada narrativamente falando, mas a atuação de Kang Hye-jeong e o roteiro afiado conseguem trazer uma sensação interessante de solidão, introspecção e até ingenuidade para a personagem. Para além da hipnose e do desenvolvimento amoroso dos dois, Mi-do, desde sua primeira cena, parece alguém desamparada e sozinha, marcada pela infância pesada - o desaparecimento do pai, o suposto assassinato da mãe pelo pai e a influência de Woo-jin. Ainda que pudesse ser um pouco melhor explorada, seu arco narrativo no filme funciona bem. Especialmente no final.

Definitivamente a cena mais impactante e marcante de todas é a revelação, mas não é aí que o filme acaba. Os momentos que seguem o suicídio de Lee Woo-jin, os minutos finais do filme, são o encerramento poético necessário de uma grande tragédia. Vemos um Dae-su destruído emocionalmente, um dos picos de ação do filme - para além da ação, externa, mais tradicional, a ação interna e conflituosa que diversas vezes é deixada de lado em detrimento de cenas de luta. O real impacto devastador da vingança. Como parte da Trilogia da Vingança, inevitavelmente aborda a vingança, mas de uma maneira muito diferente de Mr. Vingança e Lady Vingança - enquanto Mr. Vingança aborda de uma maneira mais "seca", Oldboy abraça a poesia, e a cena final possivelmente é o ápice disso. Lady Vingança tenta reproduzir esse sentimento mas, ao meu ver, não acerta tanto quanto Oldboy.

Há uma certa beleza trágica na solidão dos personagens. Um Dae-su que perdeu tudo e está na neve, sem sentido, buscando apagar tudo que aconteceu. Uma Mi-do desamparada e confusa, sem ter noção de nada, sozinha no mundo. Um Woo-jin calculista e marcado por um trauma, que perde o sentido da vida e decide terminá-la. É um dos retratos mais crus de vingança já feitos. E entre todas cenas, reassistindo, essa foi a que mais me marcou. Mais que as cenas de tortura envolvendo um martelo e dentes, mais que uma luta empolgante em um corredor, mais que uma revelação devastadora... a imagem que fica é essa: duas pessoas destruídas em um mundo frio e solitário feito de neve, que perderam o sentido. Mas ao menos não estão sozinhas mais, seja como for.

O filme abre com Dae-su segurando a gravata de um homem, prestes a tirar a própria vida, ao som de um tema frenético. Ele salva a vida do homem. Conta sua história. Sai. Quando o homem estava prestes a chorar suas dores, Dae-su sai. Ria e o mundo rirá com você, chore e chorará sozinho. Todos choram sozinhos em Oldboy, inclusive Woo-jin, à sua maneira. Ainda assim, há um que de esperança no final - mesmo sem sentido, sem objetivo, traumatizados, Dae-su e Mi-do choram um para o outro. Talvez o único momento positivo dessa jornada toda, e dessa maneira, uma das cenas mais trágicas, potentes e poéticas do cinema.

Repeti tanto a palavra "trágico"... de forma geral, ainda que um tanto do impacto foi reduzido pela falta da surpresa, Oldboy permanece um dos storytellings mais trágicos dos últimos tempos, e é isso que torna esse filme uma obra única, uma experiência imperdível, especialmente para quem quer ir além do cinema norte-americano enlatado em sua maioria.

E como de hábito, salientando sempre, fujam do remake. É uma adaptação, até mais fiel ao mangá em alguns aspectos (ainda devo um post sobre as diferenças entre filme e mangá), mas sem alma e muito longe da essência que faz Oldboy de 2003 tão fascinante. Mas espera eu falar sobre Martyrs que aí sim entro a fundo nisso de remakes genéricos sem alma... será o próximo filme a ser comentado nesse quadro novo?

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