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Jogos Mortais VI e o valor da arte


(Crédito: Divulgação - Lionsgate Films)

Arte é catarse. Arte está intimamente ligada à expressão e aos sentimentos. O que torna uma obra boa ou ruim? Essa subjetividade sempre foi algo que me atraiu muito, afinal, o que é a boa arte? À primeira vista é uma pergunta fácil. Se pegarmos os critérios técnicos, nada será melhor do que os clássicos - que música é melhor do que a música erudita? Que filme é melhor do que os de Fellini, Godard, Bergman, Almodóvar...? Mas aí entra outro aspecto, o social. Falemos sobre filmes europeus. Sem dúvidas, são filmes muito bem feitos e marcantes na história do cinema, mas é inevitável entrar no tópico eurocentrismo - às vezes, ao olharmos mais para esse recorte, deixamos de lado muitas narrativas incríveis. O cinema asiático (que ainda assim possui um destaque maior, graças a obras como Oldboy e Parasita), o cinema islandês, iraniano, sul-africano, indiano - Bollywood é a maior indústria cinematográfica e permanece apagada perante Hollywood. Inclusive nosso cinema. O cinema nacional é riquíssimo de narrativas que muitas vezes são ofuscadas pelos blockbusters estadunidenses. E quando é valorizado, não desmerecendo nenhuma produção, somente ganha destaque as ditas "comédias globais". Quantos clássicos do Cinema Novo, da Pornochanchada, são esquecidos ou deixados de lado, para somente serem consumidos por quem adentra fundo e/ou estuda cinema?

Mas o intuito aqui não é falar sobre o valor técnico. Muitas obras de todos cantos do mundo são tecnicamente impecáveis. Devemos lutar por um cinema muito mais democrático e descentralizado, mas isso é assunto para outro momento.

Quando pequena, cresci consumindo arte, em particular filmes de super-heróis (animações da DC, o clássico desenho da Liga da Justiça de Bruce Timm), e ouvindo trilhas sonoras de obras como, por exemplo, Cinema Paradiso, Betty Blue, A Liberdade É Azul, Blade Runner, Drácula de Bram Stoker... na verdade, essas são trilhas extremamente nostálgicas para mim hoje em dia. Quando as ouço sinto um aroma de "infância". São um ponto de conforto para momentos de dificuldade e crises existenciais. Ao passar do tempo, ao passo que fui conhecendo o que é cinema, fui assistindo a esses filmes e, especialmente após Cinema Paradiso, entendi que aquela era minha linguagem (ou o que achava até então). Nos anos seguintes, buscando minha formação profissional e acadêmica, me direcionei para o cinema e por alguns anos vivi uma fase de "cinéfila chata", inevitavelmente tendo aqueles velhos preconceitos cinematográficos enraizados. Ingmar Bergman ainda é meu diretor preferido, mas há muito mais que isso. Assim, passei a ofuscar o cinema comercial e de entretenimento, pois não eram "profundos" o suficiente na minha cabeça na época.

Com o passar do tempo, pude entender melhor e ampliar muito mais minha visão de mundo e, especialmente, acerca de cinema. Ao passo que assistir a filmes se tornou algo mecânico por vezes, passei a... entender melhor o cinema comercial. Nada no mundo me fará, particularmente, gostar de franquias como Velozes e Furiosos, mas são produtos que têm seu valor e certamente são importantes para muitas pessoas. Se continuam a fazer filmes assim, é porque há público, e se há público, é porque uma grande parcela de pessoas tem esses filmes como algo especial, que valha a pena esperar ansiosamente para assistir ao próximo capítulo no ano seguinte. Então caí na reflexão - há espaço para todos. É perfeitamente possível assistir a um filme do Kieslowski e em seguida a um blockbuster da Marvel. Eu mesma fui marvete por muito tempo, hoje em dia me considero quase DCnauta e abraço esse lado com muito mais carinho.

Mas o que Jogos Mortais tem a ver com isso tudo? Falamos sobre cinema europeu, brasileiro, filmes de Marvel... Jogos Mortais? É consenso que o primeiro da franquia é o melhor (isso até o lançamento do capítulo X, que dividiu um pouco o público nisso) e os demais são produtos gore com um roteiro frágil, um pior que o outro. As famosas sequências desnecessárias. Essa é uma imagem corriqueira que temos de inúmeras franquias, especialmente de terror, incluindo Jogos Mortais. Eu mesma, nunca imaginei que me tornaria fã, sempre tratei com um certo "desdém", especialmente por causa dos roteiros sem sentido e cheios de retcons desnecessários. Desnecessários. Será?

É com essa mentalidade que me surpreendo vibrando ao final de Jogos Mortais VI. Nada irá superar a trilogia original (somente Jogos Mortais X, possivelmente), o quarto e o quinto capítulo deixaram um pouco a desejar, mas no sexto parece haver uma renovada narrativa. Para além de gore e cenas de tortura, há camadas a mais de roteiro. Toda a relação de William Easton, a vítima da vez, e John Kramer, traz reflexões interessantes acerca da moralidade do sistema de saúde privado e o sentimento de bancar Deus. Escolher quem vive e quem morre. Durante toda franquia, mesmo que com a justificativa filosófica de "dar uma chance para aqueles que não valorizam a vida", é o que John Kramer e seus pupilos fazem. Uns mais, uns menos, mas a essência é essa. Qual a diferença disso e o que William faz? Isso é o que torna mais interessante tudo em Jogos Mortais VI, inclusive os jogos. Não é a violência gráfica, é o fato do personagem ter que escolher quais funcionários quer que morram e quais quer que vivam. Uma decisão moral intensa que, particularmente, torna as armadilhas, em especial esta, mais perturbadoras de se assistir.

Certamente há problemas no roteiro, em particular na construção da personagem Jill Tucker, a esposa de John Kramer. Desde o princípio, ela é uma personagem com potencial, mas encaixada meio mal na narrativa e com uma atuação que... certamente podia ser melhor. Mas mesmo com isso, entre os fãs da franquia, Jogos Mortais VI é tido como um dos melhores. Traz reflexões interessantes e também funciona como ótimo produto de entretenimento para aqueles que têm estômago para o assistir. Um filme que outrora eu julgava demais, hoje é um dos meus preferidos. Assim, acompanhando o desenvolvimento do detetive Hoffman e suas armadilhas vingativas, os planos deixados por John Kramer, a investigação um tanto quanto fictícia demais da polícia... como não vibrar com esse filme?

Nesse momento, chega-se à conclusão que o que torna um filme bom não necessariamente é seus aspectos técnicos. Certamente há filmes muito melhores tecnicamente falando. Mas, entre algumas opiniões impopulares minhas, eu genuinamente prefiro Jogos Mortais a filmes como O Irlandês. O Irlandês não me fez vibrar tanto quanto assistir a William Easton ser sentenciado assim como fez com muitos outros e, meu senhor,  o Hoffman escapando da armadilha de urso reversa, ao som do tema clássico Hello Zepp. É um sentimento que não sentia há muito tempo, de genuinamente não ligar mais para a parte técnica do filme e adentrar a narrativa. Viver a história e torcer (ou não) pelos personagens. É assistir a toda ascensão e queda de John Kramer como Jigsaw, a jornada da Amanda e seus sentimentos conflitantes e passado conturbado e, claro, ver o superhumano detetive Hoffman, o personagem que muitos amam odiar, fazendo seus jogos e escapando de maneiras ultra-dramáticas. É esse o clímax emocional.

Há tempos, em um momento casual entre amigos, conversava sobre o que é perfeição. A perfeição não existe, por assim dizer. Nada é perfeito. Mas às vezes, há situações em que, nas circunstâncias certas, com as pessoas certas, algo se torna tão especial que, pode-se dizer assim, é um momento perfeito. Levando isso para os filmes, é isso que faz uma cena (ou filme) perfeita. É algo tão particular de cada um. Assistir aos monólogos de Alma perante uma Elizabeth Vogler silenciosa. Totó se reconectando ao passado com os beijos proibidos na tela do cinema. Julie aceitando seu luto ao som magistral de Zbigniew Preisner. A batalha psicanalítica do Hulk de Eric Bana e seu pai, um Nick Nolte alucinado. Os Vingadores unidos contra Thanos em uma catarse de muitos anos de construção de universo. Ver o Hoffman escapar da armadilha mais icônica de Jogos Mortais ao som do arrepiante tema principal.

Cada um tem suas cenas perfeitas. Essa é a beleza da pluralidade da arte.

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