Pular para o conteúdo principal

WandaVision e o futuro do UCM

 


Universos compartilhados vêm ganhando cada vez mais espaço no meio audiovisual. É um formato interessante de narrativa que requer planejamento cuidadoso e bastante atenção aos detalhes, e que ficou popular após o Universo Cinematográfico da Marvel (UCM, ou MCU em inglês) - mérito especialmente de Kevin Feige, presidente da Marvel Studios. Nesse contexto, a Marvel adentra no território das séries e do streaming com um dos títulos mais esperados: WandaVision. Assim como os filmes da produtora, há inúmeras conexões com acontecimentos anteriores e diversos easter eggs. A série acompanha Wanda Maximoff (ou Feiticeira Escarlate) e Visão, que vivem em uma realidade alternativa criada por ela, muito semelhante às sitcoms dos anos 60. Com um tom bastante diferente das demais produções da Marvel, WandaVision inova não só pelo formato mas também pela originalidade - funciona muito bem tanto para espectadores eventuais quanto para espectadores assíduos do UCM. Tecnicamente é impecável, com uma fotografia que remete diretamente ao formato de sitcom, e um trabalho de áudio espetacular (vide a transição na abertura da Marvel Studios, no primeiro episódio).

O melhor da série, no entanto, são as atuações, em particular de Elizabeth Olsen. Paul Bettany tem seus momentos, e aqui ele consegue explorar seu timing cômico perfeitamente, mas é Olsen que rouba a cena, trazendo ao mesmo tempo a leveza e confusão da personagem. Ao menos baseado no que os dois primeiros episódios indicam, a série se encaminhará para um clímax intenso, e um desenvolvimento de personagem interessante para Wanda. Os coadjuvantes funcionam bem na narrativa, ambientando de maneira eficiente a história, além de indicarem novas e intrigantes direções que esta - e o UCM - pode tomar.


(Crédito: Divulgação - The Walt Disney Company / Marvel Studios)


(Spoilers de obras pregressas do UCM adiante)


A partir daqui se faz importante falar sobre o UCM em si, e como ele influencia (ou não) WandaVision. Dentro da cronologia da Marvel, WandaVision se passa após os acontecimentos de Vingadores: Ultimato, e mostra Wanda se isolando e lidando com a morte do Visão. Sendo assim, vários signos são inseridos, desde easter eggs nas propagandas que interrompem os episódios bem como indícios de personagens e situações que irão acontecer mais adiante. Para uma análise mais detalhada desses aspectos, diversos canais voltados para cultura nerd estão destrinchando os inúmeros detalhes presentes nos episódios iniciais. Meu viés aqui parte de o quanto essas referências interferem na construção da autoralidade da série. E para isso é importante voltar um pouco atrás, para quando não havia UCM e os universos compartilhados não eram tão populares.

O formato universo compartilhado é um dos mais desafiadores, pois requer um planejamento meticuloso para que nada saia do lugar. Sendo assim, em especial no caso do UCM, acabou se criando uma "fórmula" narrativa, que agiliza a produção e direciona o planejamento para o entre-filmes (agora séries também). Isso acaba tirando grande parte da autoralidade que o cinema de super-heróis tinha antigamente. A fotografia, os efeitos especiais, as histórias... todas são incríveis, mas com algumas exceções (como Capitão América 2: O Soldado Invernal e Pantera Negra), são padronizadas - o melhor exemplo disso é as trilhas sonoras. Tirando o tema de Vingadores, quais grandes temas musicais  de super-heróis da Marvel tivemos nos últimos tempos? Um tema que fique na nossa cabeça após sair do cinema, que nem o do Homem-Aranha clássico, dos X-Men (a clássica Suite de X2), ou até mesmo de filmes como o Hulk de 2003 ou o Quarteto Fantástico de 2005. Não somente pela nostalgia de quem vos fala, os temas antigos eram muito mais diversos e memoráveis.

WandaVision não tem a trilha sonora como um grande destaque, mas traz uma estética bastante inovadora, diferente de tudo que foi visto no UCM desde então. Causa um estranhamento inicial, mas um estranhamento muito bem vindo, que se transforma em curiosidade e rapidamente conquista quem assiste à série, sem deixar de fazer as necessárias ligações com as outras produções da Marvel. Deixa claro que o foco aqui não é sequências de ação frenéticas ou efeitos especiais que saltam os olhos - inclusive, os efeitos da série são sutis e incríveis - e sim o desenvolvimento de personagens. Uma grata surpresa vinda da Marvel Studios.


(Crédito: Divulgação - The Walt Disney Company / Marvel Studios)

Não, eu não amei a série. Na verdade, se todos episódios tivessem estreado de uma vez, provavelmente não assistiria inteira. Mas não deixo de notar que WandaVision é uma série extremamente inovadora para os padrões da Marvel, e um ótimo começo para as séries originais desta no Disney +. Para quem deu play com zero expectativa, saí surpreendido. Positivamente.


Análise da trilogia original dos X-Men: 

Análise da trilogia original do Homem-Aranha:

Letterboxd:

lucasnoronha99 (https://bit.ly/3dbE2p5)

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Ensaios Cinematográficos - Direção de Fotografia #1

Direção de fotografia é uma das áreas mais importantes do processo audiovisual, e uma das mais difíceis também, especialmente por lidar direto com tecnologia. Os ensaios a seguir escrevi para um curso que fiz na Academia Internacional de Cinema (AIC) relativo à essa área. São textos mais técnicos e, evidentemente, recheados de spoilers . 01) Dark (2017-2020)  (Crédito: Divulgação - Netflix) Tendo como um dos pilares o efeito de déjà-vu, a fotografia (especialmente a decupagem) reforça essa sensação, trazendo planos semelhantes, como exemplo as mortes de Martha e Jonas. Mas o que mais me chamou a atenção foi a utilização dos planos aéreos da floresta, que serve como transição entre situações, tempos e mundos diferentes. Cada plano é único, e é interessante notar como as sequências no passado têm tons mais quentes (variações de bege e tons avermelhados) e as do futuro tons mais frios (especialmente azulados). Com certeza houve um reforço no processo de colorização, mas acredito que d...

Vomit Gore Trilogy (2006-2010) e o "horror" de Lucifer Valentine

Lucifer Valentine é um dos diretores mais controversos de todos os tempos. Relativamente famoso no meio underground, basta ler o seu nome para se ter uma noção de quem ele é. Esse nome, Lucifer Valentine, é um pseudônimo - ele vive em anonimato enquanto produz sua "filmografia". Poucas informações são sabidas sobre ele - Valentine é satanista, fã do Kurt Cobain e pode ter tido uma relação incestuosa com sua irmã Cinderella, além de uma relação BDSM abusiva com sua atriz principal, Ameara Lavey. Tudo isso foi dito pelo próprio nas raras entrevistas que ele deu. Seu nome costuma ser associado ao de outros diretores extremos, tais quais Marian Dora (cujo nome também é um pseudônimo) e Fred Vogel. Ainda que diretores radicais, com obrais tais quais Melancholie der Engel (Dora) e a trilogia August Underground (Vogel), nenhum deles se compara com Lucifer Valentine. Um dos primeiros trabalhos de Valentine é um documentário de 2012, Black Metal Veins, que acompanha uma banda de black...

CineBR #1 - Tinta Bruta (2018)

Infelizmente ainda há muito preconceito e desconhecimento quanto ao nosso cinema. Somos um polo cinematográfico muito importante, e para além de filmes de comédia da Globo Filmes (não julgando, também são interessantes), há uma vasta variedade de títulos incríveis e que não devem nada a muitos filmes internacionais. Um desses é Tinta Bruta, dos diretores Filipe Matzembacher e Márcio Reolon, que circulou por vários festivais, incluindo o Festival de Berlim. Tinta Bruta (2018) O filme conta a história de Pedro, um jovem homossexual que está sob processo criminal e, com o codinome GarotoNeon, apresenta danças eróticas coberto de tinta na internet. Ele vive com sua irmã em Porto Alegre, e descobre que outro usuário está copiando seu estilo. As pessoas vêm e vão em sua vida, ao passo que ele vai se apresentando e passando por situações que o transformam. Tinta Bruta é provavelmente meu filme nacional preferido. Lembro de o ter assistido na Cinemateca Capitólio, em uma sessão com participaçã...